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Geraldo
Por Claudio Lessa,
jornalista (*)

"Se tem pé de pato, pena de pato, bico de pato, corpo de pato, anda como um pato, então, é um pato".  Relembro esse dito dos nossos poderosos irmãos do Norte para comentar a surfada atual de brasileiros e brasileiras em um não-assunto, o da chamada Lei Seca.

O desgoverno, a meu ver acertadamente (pois é, isso também acontece, de vez em quando), resolveu limitar severamente o nível de álcool no sangue dos motoristas do fazendão. Lógico, em vez de primeiro - e, de preferência, silenciosamente - equipar cada carro da polícia com um bafômetro de míseros 120 dólares, fez muito mais do que o contrário. Primeiro, fez o estardalhaço da Lei Seca, provocando o choro e ranger de dentes dos cachaceiros de plantão. De quebra, lusitanamente, superfaturou em até 4 mil e 400 por cento, segundo o noticiário, o preço de cada uma das maquininhas.

Com isso, adquiriu muito poucas delas e transformou o que deveria ser uma atividade de rotina num mico. Os eventos espetaculosos não raros são acompanhados por repórteres de tevê e tiveram até como subproduto uma troca de chumbo tecnológico, com o envio de torpedos em massa para alertar a tchurma da manguaça a respeito dos locais onde as blitze estão sendo realizadas em determinado momento. Claro, essa é a mentalidade, herdada você sabe muito bem de quem.

Voltemos ao pato lá de cima. Alguns adeptos das soluções via tapetão resolveram partir para outra estratégia, a de contestar o mero uso do bafômetro durante uma blitz promovida pelo departamento de trânsito. Segundo os luminares de meia tigela, soprar no bafômetro seria produzir uma prova contra si mesmo, e esse direito - o de não produzir provas contra si mesmo - o cidadão possui, de forma inalienável. Você sabe o que é um sofisma?

Acontece que o departamento de trânsito aplica o teste do bafômetro - na maior parte das vezes - para corroborar o que os agentes de controle de tráfego já suspeitam desde a abordagem de um determinado veículo: o condutor está encachaçado. Como até a tevê já mostrou, em matérias que seriam hilárias se não fossem trágicas, só resta determinar o grau de encachaçamento do indivíduo.

Ou seja: os agentes já viram que o comportamento do motorista é de alguém bêbado; já sentiram o odor de álcool no hálito do sujeito; já perceberam a dificuldade (em menor ou maior grau) de o motorista articular suas idéias ao se comunicar com a autoridade. Em resumo, já viram que o que está na frente deles tem pena de pato, bico de pato, pé de pato, corpo de pato, olho de pato, anda como pato. Só falta determinar quanta "gordura" tem o pato, o que é feito com o bafômetro.

Como se não bastasse a teoria, alguns já passaram à prática. Esses mais iluminados pelo lado negro da força andaram buscando - e conseguiram - liminares na justiça do fazendão para garantir, com um pedaço de papel, o seu direito de ir e vir sem que a autoridade policial possa verificar se eles estão bêbados ao volante, ameaçando a própria vida e a vida de um sem número de outros cidadãos que não têm nada a ver com a sua vontade e/ou necessidade e/ou irresponsabilidade do uso excessivo do álcool.

A cretinice chegou ao paroxismo outro dia quando um sujeito que ziguezagueava na pista e acabou batendo o carro recusou-se a fazer o teste de bafômetro, dizendo-se não-alcoolizado.

Mais do que um pedaço de papel, o simples e velho bom senso, que criou o ditado "quem não deve, não teme", dita também que, se você é abordado por uma autoridade policial devidamente constituída para esse fim e é considerado(a) por ela embriagado(a) à primeira vista, e essa autoridade possui um aparelho portátil (fruto de inegáveis e elogiáveis avanços tecnológicos) que pode dizer com segurança se você está ou não embriagado(a) de acordo com a legislação vigente, você não tem motivo para recusar o uso do aparelho, já que ele pode tirar a dúvida ali, no local, e você pode seguir seu caminho em paz ou ir para a cadeia. Simples assim.

Agora, se você se recusa a usar o aparelho para o tira-teima, a inferência automática e óbvia é de que você está admitindo sua culpa. O único destino disponível, nesse caso, é o do xilindró - o melhor lugar para "patos" desse tipo.

(*) Artigo originalmente publicado no saite Direto da Redação, editado em Miami.
 
 

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